No âmbito da unidade curricular de Design e Comunicação Visual, disciplina da licenciatura de Ciências da Comunicação da faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi proposta a elaboração de duas composições: uma circular (11,5 cm de diâmetro) e outra quadrada (12 cm de diâmetro) que tinham como objectivo primordial a desconstrução da realidade, tendo como base os elementos básicos da comunicação visual. E, segundo Dondis, um dos pontos de vistas mais reveladores no que consta à análise de uma obra visual é "decompô-la em seus elementos constitutivos, para melhor compreendermos o todo. Esse processo pode proporcionar uma profunda compreensão da natureza de qualquer meio visual, e também da obra individual e da pré-visualização e criação de uma manifestação visual, sem excluir a interpretação e a resposta que a ela se dê."
É importante enfatiza que a conceção desta ideia surgiu a partir do estudo do primeiro tópico inserido no programa da disciplina, a saber: as teorias da perceção visual, mais concretamente, a de Gestalt. De facto, a sua base teórica consiste na desconstrução da realidade como um todo, dando primazia às suas partes constituintes, " que podem ser isoladas e vistas como inteiramente independentes, e depois reunidas ao todo", por outras palavras, é fundamental tornar-se explícito o que está implícito. Sendo assim, decompor a imagem em seus elementos constituintes permite uma melhor compreensão da mesma, não comprometendo, deste modo, a sua interpretação. - "Sua base teórica é a crença em que uma abordagem da compreensão e da análise de todos os sistemas exige que se reconheça que o sistema (ou objeto, acontecimento, etc.) como um todo é formado por partes interactuantes.""É impossível modificar qualquer unidade do sistema sem que, com isso, se modifique também o todo."
Após a compreensão desta nova perceção da realidade, a prática revelou-se crucial para uma melhor assimilação."Para analisar e compreender a estrutura total de uma linguagem visual, é conveniente concentrar-se nos elementos visuais individuais, um por um, para um conhecimento mais aprofundado de suas qualidades específicas." Sendo assim, numa primeira fase, foi feita uma recolha fotográfica que destacava o ponto, a linha e, sobretudo, a textura. Saliente-se que o contexto/condição atmosférica, em que as fotografias foram captadas influenciou indubitavelmente a escolha da música.
O tema musical escolhido é de Marlon Roudette, When the Beat Drops Out, que salienta essencialmente os sentimentos de um homem por uma mulher e, ainda nos faz idealizar uma época onírica, o Verão. Para além disso, a melodia instituída pelo instrumento tambor de aço, assim como a voz do cantor contribuíram para a ideia-base do projeto: a elaboração de duas composições, em que os dois elementos fulcrais da análise (a voz e a melodia) fossem representados por elementos básicos da comunicação visual como o ponto, a linha, a cor, a textura, o tom, a dimensão e o movimento.
Relativamente ao processo de realização das duas produções artísticas começou-se por fazer uso técnica de salpicar tinta acrílica, num primeiro momento, com o pincel e a escova de dentes, e em segundo lugar com a palhinha, no entanto, nesta última foram utilizadas apenas as cores neutras como o preto e o branco.
Após a execução do trabalho manual, revelou-se de extrema importância a sua captura fotográfica, de modo a que, numa fase posterior, fosse manuseada/manipulada em programas específicos de edição de fotografia, como o Adobe Illustrator e o Adobe Photoshop.
Para além da técnica mencionada anteriormente, foi posto em prática o efeito Light Paiting que traduzia os versos: "When the lights go out/ And the morning comes" "I just wanna know that feelings in your heart for me". De facto, a ideia inicial consistia na representação figurativa da luz e do batimento cardíaco por meio das ondas expressas num electrocardiograma, ondas essas que nos remetiam para os sentimentos desconhecidos do protagonista da música que, de certa forma, estão "inscritos/cingidos" no coração da mulher, por quem ele se apaixonou. Já a luz, conseguida através do efeito light painting, representava o amanhecer.
Deste modo, como é evidente através do supramencionado, foram feitas diversas experiências com o intuito de transmitir a ideologia da música, exemplos esses que podem ser observados abaixo.
☛ 1ª experiência ( Efeito Light Painting em conjunto com a técnica Splatter)
Quadrado
Resultado no Photoshop:
Efetivamente, esta experiência, apesar de ter em consideração os elementos básicos da comunicação visual, nomeadamente a linha, o ponto e a textura, falhou na medida em que não se conjugava com a ideia concebida para o circulo (partilhada posteriormente) que transmitia essencialmente a vivacidade da cor. De facto, esta produção revelava-se excessivamente sombria, macabra e fúnebre, ou seja, transmitia sentimentos completamente contraditórios aos idealizados para a representação visual da música. Tendo consciência desta descontextualização e do equivoco que a fotografia exala, experimentou-se novas técnicas como o Splatter até atingir o resultado final.
☞ 2ª experiência (Splatter)
Primeiros resultados:
Trabalho final:
De facto, para a elaboração final do projecto tornou-se imprescindível
não só o recurso a certos elementos básicos da comunicação visual como o ponto,
a linha que "nas artes visuais, tem a sua própria natureza, uma enorme energia. Nunca é estática; é o elementos visual inquieto e inquiridor de esboço", a cor, o tom, a dimensão e o movimento, mas também a utilização de
algumas técnicas da comunicação visual, tais como: a instabilidade que nos
remete para uma ausência de equilíbrio e para um estado de inquietação; a
irregularidade revelada através da mistura aleatória das tintas; a complexidade
que enfatiza a desorganização visual; a espontaneidade característica de ambas
as composições visuais; a profundidade que sugere uma dimensão/perspectiva e,
ainda, mas não menos importante, o acaso que nos induz à ausência de planeamento
e a uma desorganização intencional.
Sem
dúvida que, em ambas as composições, a técnica de salpicar tinta ocasionalmente
conjugada com o sopro da palhinha em pequenas porções de tinta tinha como objectivo
primordial representar visualmente a emergência/eclosão do amor, que surgiu,
tal como na execução prática desta técnica de forma espontânea, inconsciente,
involuntária, por outras, a paixão vivenciada nesta música e a técnica Splatter
conjugam-se no que diz respeito à razão que levou à sua aparição, ou seja, o
acaso.
Para
além da vertente metafórica, esta estratégia permitiu obter também uma série de
elementos básicos, nomeadamente, o ponto, o ponto em movimento designado por
linha e as formas que foram criadas a partir dos salpicos de tinta que
conferiram movimento à obra visual.
“Quanto mais intensa ou saturada for a coloração de um
objeto ou acontecimento visual, mais carregado estará de expressão e emoção.” Esta
expressão traduz rigorosamente aquilo que se pretende passar nas duas
composições. Por outras palavras, a cor é, sem dúvida nenhuma, o elemento que mais
se destaca e o que contribui para um maior impacto tanto a nível visual como
emocional. Sendo assim, e tendo em conta a pertinência da cor para a
representação visual da música, optou-se por uma escolha cuidadosa de tons
azulados e pela dicotomia branco/preto, uma vez que a cor azul simboliza tranquilidade,
serenidade, ritmo e harmonia, enfim, todas as sensações que nos remetem para a
época balnear e consequente paixão de Verão presente implicitamente na letra.
Já, o branco simboliza a espuma do mar que está intimamente ligada ao oceano,
daí estar “misturado” com os tons de azul (ondas), porque são elementos constituintes/partes
de um todo que, neste caso, é o mar. É importante frisar que esta associação
surgiu a partir do instrumento musical, a saber: tambor de aço que inicia este
tema musical e que é uma melodia característica e peculiar da música de Marlon
Roudette.
A
composição quadrada distingue-se da circular em dois aspectos: o fundo e a perspectiva/profundidade.
“Os efeitos produzidos pela perspectiva podem ser intensificados pela
manipulação tonal, através do claro-escuro, a dramática enfatização da luz e
sombra”, por outras palavras, a ideia de perspectiva foi conseguida também por
meio da diferença de tonalidades, assim como o efeito de luz/sombra que é
enfatizado na diagonal. "Os efeitos produzidos pela perspetiva podem ser intensificados pela manipulação tonal, através do claro-escuro, a dramática enfatização de luz e sombra." Tendo em conta o carácter figurativo, a parte escura
que corresponde ao segundo momento relativamente à direcção do olhar remete-nos
para as lembranças/memórias dos bons momentos que, de certa forma, ficaram no
passado, daí estarem presentes na segunda parte da composição. Já o fundo releva
uma cor neutra (cinzento), para que a confusão, a incerteza, a inquietação a nível
mental no que diz respeito aos sentimentos que desconhece em relação à sua
paixão seja realçada (mistura de cores). Ou seja, a mistura da cor que deu
origem a diferentes tonalidades tende a ser destacada nesta composição, uma vez
que se pretendeu dar ênfase ao estado de incerteza, em que o Homem se encontra.
Saliente-se, ainda, que as duas linhas brancas representam o casal que se
encontra separado devido aos infortúnios da vida.
O círculo
compreende um fundo amarelado, conseguido através da manipulação no Adobe
Photoshop, que representa precisamente o amanhecer mencionado no tema musical.
Contrariamente ao quadrado, as linhas brancas encarnam a inquietação vivida
pelo protagonista, porque embora tivesse havido, numa fase anterior, uma
colisão imprevisível e indesejada entre eles (mistura aleatória das tintas de
branco e de tons azulados), o alvoroço sentimental, em que o homem vive incessantemente
pode tornar-se um obstáculo/transtorno na sua relação. Sendo assim, as linhas
são sólidas e bastante perceptíveis, correspondendo a algo que surgiu,
intempestivamente, no desenrolar da técnica propriamente dita (Splatter). "A linha pode assumir formas muito diversas para expressar uma grande variedade de estados de espírito. Pode ser muito imprecisa e indisciplinada para tirar proveito da sua espontaneidade de expressão." Para
além disso, a cor preta, nesta composição, é mais evidente e como se pode
observar, esta acaba por envolver e, até mesmo, cercar a mistura do branco e
azul. Metaforicamente, a cor preta encarna o sofrimento que, gradualmente consome
a fase esplendorosa/deslumbrante da paixão.
Em suma, todo o processo de criação destas duas composições exigiu o desenvolvimento de determinadas competências, tais como: o aperfeiçoamento do uso de programas como o Adobe Illustrator, a pesquisa e consequente assimilição de conhecimentos relacionados com o tema em questão: Técnicas e elementos básicos da Comunicação Visual e, ainda, a estimulação de aptidões como a autocrítica e a interpretação para além do explícito.
"Para analisar e compreender a estrutura total de uma linguagem visual, é conveniente concentrar-se nos elementos visuais individuais, um por um, para um conhecimentos mais aprofundado das suas qualidades especificas."
Referências:[1] DONDIS, Donis A. A sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 1991, pp. 51-83.
[2] DONDIS, Donis A. A sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes: 1997.
[2] DONDIS, Donis A. A sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes: 1997.











